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Psicologia dos elevadores

Existe um pavor inerte que vive nos ares interiores desse reduto claustrofóbico

Há algo de muito estranho com os elevadores. O instrumento que conduz as pessoas até os respectivos andares – sem o menor esforço das coxas e panturrilhas – durante a subida nas escadas, deveria ser uma simples máquina, mas não é!

Existe um pavor inerte que vive nos ares interiores desse reduto claustrofóbico. O medo de ficar trancado, pela falta de energia, ou até mesmo a terrível sensação de o cabo de aço arrebentar, fazendo com que a fabulosa engenhoca despenque até se destroçar nas molas do piso térreo realmente apavoram qualquer cidadão ajuizado.

Esse temor atua no subconsciente e prolonga a sensação temporal dos indivíduos. Desta forma, o movimento dos elevadores torna-se mais lento que o deslocamento espacial e o próprio tempo real. Por isso é que o interminável minuto, durante a viagem pelos andares, custa a se esvair, principalmente quando há pressa em chegar ao topo ou ao solo. É quase insuportável.

Aos moradores dos apartamentos resta um obstáculo a ser ultrapassado. Quando um morador está sozinho, até que não há problema, já que ele se cuida para concretizar a própria distração. Seja cantando, dançando, fazendo caretas, olhando no espelho, penteando cabelo, ajeitando a roupa, falando sozinho ou ficando imóvel como estátua. Mas todo esse processo cessa-se com a parada em um andar intermediário. A entrada de um morador faz com que o outro seja imobilizado instantaneamente.

Passa a vigorar, então, a arte de cumprimentar em elevadores. Entretanto, é preciso ter paciência para aguentar os moradores exóticos – antissociais das alturas – que não compartilham o interior do recinto com ninguém, em busca da liberdade para se manifestar perante o espelho. Há inclusive um famoso relato de um morador goiano que andava armado dentro do elevador para intimidar qualquer outro que tentasse compartilhar dessa liberdade interna do seu ambiente. Aos filiados do cordial e um tanto quanto insensível cumprimento, o longo decurso de tempo é disfarçado com um assunto fundamental: a meteorologia. Homens comuns tornam-se argutos peritos, analisando a previsão do tempo, a chuva e o sol, o grau de inclinação da terra, o efeito estufa, e, dependendo do calibre dos conhecimentos, a coisa pode se descambar para as monções asiáticas, o El Niño, citando nomes das correntes marinhas, do ponto cardeal exato com longitude e latitude e dos ciclos dos ventos marais, comparando-os à atual fase da lua, influenciando na umidade do nosso cerradão. E a chuvinha, para ou não? Como você está? Está muito quente! É por essas e outras que a humanidade segue cumprindo a lei invisível dos condôminos.

Muitos exaltam a libido nos elevadores. Talvez seja por isso que disseminaram as câmeras ocultas. Em algumas cidades brasileiras, a legislação obrigou a pendurar uma placa em mal português: “antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se no local”. Como não se pode esgotar o assunto neste singelo texto, pode-se entender o que o poeta John Milton quis dizer com “não basta existir, é preciso viver e divagar sobre as coisas mais simples do mundo, porque o homem é por demais complexo”.

(www.dmdigital.com.br)

 

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